segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O ovo

"Carlos acordou e fritou um ovo."

Anônimo 

"N'aquele outomno de 1875, Carlos abriu as pálpebras esguedelhadas --tinha acordado macilento. Trazia-lhe tranquillidade contar as 18 velas do lustre de ouro, presenteado pelo tio Affonso havia 32 anos. Sommente para dar-me esse lustre serviu o tio Affonso", pensou. Levantou-se da cama com uma fadiga langorosa, arrastando consigo os lençóis de seda indiana e esticou-se num fato de xadresinho inglês. Cobrindo-se com um cachenez de seda clara e abriu um tellegramma, indolente e poseur, em frente ao espelho de Veneza - resvalava, atravéz das árvores, uma luz enverdinhada. Ordenou à criada:
-- Frite-me ovos." 

Eça de Queiroz 


"Carlos acordou com uma súbita vontade de fritar um ovo, hei de fritar um ovo, pensou, agora mesmo, posto que se não fritá-lo, não poderei comê-lo frito, e terei de me contentar com ele cru, o que não seria do meu agrado. Tendo pensado nisso, fritou o ovo, e não está ruim, pensou, o ovo, frito." 

José Saramago 


"Acordei libertado da angústia de não estar acordado. Não estar acordado é enorme: viver é isso. Fritei um ovo." 

Clarice Lispector 


"Sonada: Carlos abriu o olho. Bisbilhava-se. A galinha desovou um ovo, disse Migué.
-- Larga de afoiteza, gritou tio Janjório. É muita ambicionice comer a galinha que ainda não galinhou.
Carlos nem orelhou. Quando o tio viu, o ovo já não era." 

Guimarães Rosa 


"Acordei ao lado de Vânia, que ainda dormia. Seus seios eram rosados e sua pentelheira era vasta e negra. Levantei e acendi um cigarro naquele fogão de bacana. Na cozinha, Branca me esperava, nua, com uma Magnum na mão, tapando-lhe a boceta. Eu disse alguma coisa que ela não gostou. Apontou a arma para os meus testículos.
-- Frita, Carlos. Seus ovos vão ser a porra do meu café da manhã.
Alguém bateu na porta. Era Frida, nua. Fodemos." 

Rubem Fonseca 


"Carlos acordou com a perna meia dormente. Para ficar com menas dor, recorreu a uma simpatia. Foi até a cozinha e fez um ovo estralado." 

Paulo Coelho 

gregorio duvivier

terça-feira, 27 de agosto de 2013

A primeira provocação...


A primeira provocação ele agüentou calado. Na
verdade, gritou e esperneou. Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão.
A segunda provocação foi a alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. Uma porcaria. Não reclamou porque não era disso.
Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento. Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz.
Foram lhe provocando por toda a vida.
Não pode ir a escola porque tinha que ajudar na roça. Tudo bem, gostava da roça. Mas aí lhe tiraram a roça.
Na cidade, para aonde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era lado. Resistiu a todas. Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar. Ir para um barraco pior. Ficou firme.
Queria um emprego, só conseguiu um subemprego. Queria casar, conseguiu uma submulher. Tiveram subfilhos. Subnutridos. Para conseguir ajuda, só entrando em fila. E a ajuda não ajudava.
Estavam lhe provocando.
Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar pra roça.
Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era. Parece que a idéia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa.
Terra era o que não faltava.
Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera. Amanhã. No próximo ano. No próximo governo. Concluiu que era provocação. Mais uma.
Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Para valer. Garantida. Se animou. Se mobilizou. Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir. Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação.
Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim. Talvez amanhã. Talvez no próximo ano... Então protestou.
Na décima milésima provocação, reagiu. E ouviu espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele:
- Violência, não!

                                       Luis Fernando Veríssimo

Sobre o futuro

Todo espírito preocupado com o futuro é infeliz.
O mais corriqueiro dos erros humanos é o futuro. Ele falseia a nossa imaginação, ainda que ignoremos totalmente onde nos leva.
Quando pensamos no futuro, nunca estamos em nós. Estamos sempre além.
O medo, o desejo, a esperança jogam-nos sempre para o futuro, sonegando-nos o sentimento e o exame do que é, para distrair-nos com o que será, embora o tempo passe e já não sejamos mais.
                                                                                                                   Montaigne

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Da arte de ser patife

Nós, brasileiros, temos grande vocação para ser patifes, e quase não é necessário ensinar a ninguém, aqui, a arte de ser patife. Em todo caso, como ainda há alguns que não são patifes, vou ensinar-lhes a arte.
Patifaria nada tem a ver com as patas, embora também se possa praticá-la com a dita cuja. Comumente, porém, pratica-se a patifaria com as mãos, ou com a boca. E quando disse patas, não me referi aos patos e às patas, aves anseriformes, anatídeas, que nadam nas lagoas e botam ovos. De qualquer maneira, quem é vítima de uma patifaria é um pato.
O nosso PIB, em patifaria, é elevadíssimo, e cresce cada vez mais a cada governo, e há quem seja especialista nela, como os deputados e senadores.
A patifaria, comumente se faz através do engodo, da promessa não cumprida, do engano, da dívida contraída e não paga. Praticam-na os comerciantes, os publicitários, os empresários, os fabricantes, et caterva. Também pode ser o estelionato, ou o peculato, e coisas de semelhante gênero. É bem de se ver ainda que a patifaria não é violenta. Ela é exercida suavemente, através das palavras, convencendo-se a vítima de que está fazendo um bom negócio. Quando a vítima é também um patife que pretende tirar vantagem de outro patife que lhe propõe uma transação, há no caso o que se denomina fraude bilateral.
O patife não é um medroso, é antes um audaz e, como diziam os latinos, “audax fortuna juvat”.
As mil formas de patifarias são muito diversificadas, e entre elas há o conto do vigário. Não sei, porém, se há o conto do bispo. Isto é, há sim, o conto dos bispinhos de algumas seitas religiosas. Estes, praticam a patifaria através da exibição de exorcismos e têm sempre a Bíblia na mão.
Patifaria ainda faz o homem que trai a sua mulher, e vice-versa.
A patifaria jamais espatifa, porque, como já disse, é praticada suavemente, através da persuasão do bobo que vai sofrer-lhe as conseqüências.
Os cartórios estão cheios de patifarias registradas. Os jornais estampam as patifarias e também as cometem. Que dizer então dos canais de televisão? Até através do telefone se pode praticar patifarias.
O patife bem sucedido nunca vai para a Cadeia.
Na língua portuguesa há um livro velhusco, em puro vernáculo, com o título “A Arte de Furtar”. Nele se ensina não só a arte de furtar, mas também a arte da patifaria.
Como somos o país da patolândia, aqui a patifaria prospera a olhos vistos.
Também é comum a patifaria no jogo de cartas.
Os banqueiros são patifes bem remunerados.
Igualmente, nas Bolsas, com o sobe e desce das ações, a patifaria tem o seu lugar.
E se você praticar estas recomendações, será, sem dúvida, um patife bem sucedido.
Afinal de contas, a vida é também uma patifaria. Promete o que não nos dá, e nos dá o que não queremos.

                                                                Annibal Augusto Gama

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

O artista inconfessável(Epígrafe)










Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.



                                     João Cabral de Melo Neto

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O REVÓLVER DO SENADOR

O Senador ainda estava na cama, lendo calmamente os jornais, e eram dez horas da manhã. Súbito ouve a voz do netinho de quatro anos de idade por detrás da folha aberta, bem junto de sua cabeça:
– Vovô, eu vou te matar.
Abaixou o jornal e viu, aterrorizado, que o menino empunhava com as duas mãos o revólver apanhado na gaveta da cabeceira.  Sempre tivera a arma ali ao seu alcance, para qualquer eventualidade, carregada e com uma bala na agulha. Nunca essa eventualidade se dera na longa seqüência de riscos e tropeços que a política lhe proporcionara. No entanto, ali estava, agora, apanhado de surpresa, sob a mira de um revólver. O menino começou a rir de sua cara de espanto.
– Eu vou te matar – repetiu, dedinho já no gatilho.
O menor gesto precipitado e a arma dispararia.
Pensou em estender o braço e ao menos afastar o cano de sua testa, que já começava a porejar suor. Mas temeu o susto da criança, o dedo se contraindo no gatilho... Tentou falar e de seus lábios saíram apenas sons roufenhos e mal articulados.
– Não me mata não – gaguejou, afinal: – você é tão bonzinho...
– Pum! Pum! – e o demônio do menino sempre a rir, só fez dar um passo para trás; que o colocou fora de seu alcance. Agora estava perdido.
– Cuidado, tem bala... – deixou escapar, e a voz de novo lhe faltou. Toda uma vida que terminava ali, estupidamente nas mãos de uma criança – de que adiantara?  Tudo aflição de espírito e esforço vão. Se alguém entrasse no quarto de repente, a mãe, a avó do menino... Que é isso, menino! Você mata seu avô! Com o susto... Senti o pijama já empapado de suor. Era preciso fazer alguma coisa, terminar logo com aquela agonia. Estendeu mansamente o braço trêmulo:
– Me dá isso aqui...
– Mãos ao alto! – berrou o menino, ameaçador, dando passo para trás, e as mãos pequeninas se firmaram ainda mais no cabo da arma. O Senador não teve outra coisa a fazer senão obedecer.
E assim se compôs o quadro grotesco: o velho com os braços erguidos, o guri a dominá-lo com o revólver. De repente, porém, o telefone tocou.
– Atende aí ­– pediu o Senador, num sopro.
Estava salvo: o menino tomou do fone, descobrindo brinquedo novo, e abaixou o revólver. O Senador aproveitou a trégua para apoderar-se da arma. Então pôs-se a tremer, descontrolado, enquanto retirava as balas com os dedos aflitos. O menino começou a chorar:
– Me dá! Me dá!
A mulher do senador vinha entrando:
–O que foi que você fez com ele? Está com uma cara esquisita... Que aconteceu?
– Acabo de nascer de novo – explicou simplesmente.

                                                    Fernando Sabino


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A Velhinha de Taubaté

"Morreu no último dia 19, aos 90 anos de idade, de causa ignorada, a paulista conhecida como “a Velhinha de Taubaté”, que se tornou uma celebridade nacional há alguns anos por ser a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo.
O fenômeno, que veio a público durante o governo Figueiredo, o último do ciclo dos generais, levou multidões a Taubaté e transformou a Velhinha numa das maiores atrações turísticas do estado.
Além de estandes de tiro ao alvo e de venda de estatuetas da Velhinha e de uma roda-gigante, ergueram-se tendas para vender caldo de cana e pamonha em volta da pequena casa de madeira onde a Velhinha morava sozinha com seu gato, e não era raro a própria Velhinha sair de casa e oferecer seus bolinhos de polvilho a curiosos que chegavam em ônibus de excursão para serem fotografados com ela e pedirem seu autógrafo.
A Velhinha sempre acompanhou a política e acreditou em todos os governos desde o de Getúlio Vargas, inclusive em todos os colaboradores dos governos militares, “até”, como costumavam dizer muitos na época, com espanto, “no Delfim Netto!”
O presidente Sarney telefonava freqüentemente para Taubaté para saber se a Velhinha, pelo menos, ainda acreditava nele, e Collor foi visitá-la mais de uma vez para pedir que ela não o deixasse só.
As circunstâncias da morte da Velhinha de Taubaté ainda não estão esclarecidas. Sua sobrinha Suzette, que tem uma agência de acompanhantes de congressistas em Brasília embora a Velhinha acreditasse que ela fazia trabalho social com religiosas, informou que a Velhinha já tivera um pequeno acidente vascular ao saber da compra de votos para a reeleição do Fernando Henrique Cardoso, em quem ela acreditava muito, mas ficara satisfeita com as explicações e se recuperara.
Segundo Suzette, ela estava acompanhando as CPIs, comentara a sinceridade e o espírito público de todos os componentes das comissões, nenhum dos quais estava fazendo política, e de todos os depoentes, e acreditava que como todos estavam dizendo a verdade a crise acabaria logo, mas ultimamente começara a dar sinais de desânimo e, para grande surpresa da sobrinha, descrença.
A Velhinha acreditara em Lula desde o começo e até rebatizara o seu gato, que agora se chamava Zé. Acreditava principalmente no Palocci. Ela morreu na frente da televisão, talvez com o choque de alguma notícia. Mas a polícia mandou os restos do chá que a Velhinha estava tomando com bolinhos de polvilho para exame de laboratório. Pode ter sido suicídio.
O ambiente no parque de diversão em torno da casa da Velhinha de Taubaté é de grande consternação.

                                                Luiz Fernando Veríssimo