segunda-feira, 21 de julho de 2014

A METAMORFOSE




Uma barata acordou um dia e viu que tinha se transformado num ser
humano. Começou a mexer suas patas e viu que só tinha quatro, que eram grandes e pesadas e de articulação difícil. Não tinha mais antenas. Quis emitir um som de surpresa e sem querer deu um grunhido. As outras baratas fugiram aterrorizadas para trás do móvel. Ella quis segui-las, mas não coube atrás do móvel. O seu segundo pensamento foi: "Que horror... Preciso acabar com essas baratas..."

Pensar, para a ex-barata, era uma novidade. Antigamente ela seguia seu instinto. Agora precisava raciocinar. Fez uma espécie de manto com a cortina da sala para cobrir sua nudez. Saiu pela casa e encontrou um armário num quarto, e nele, roupa de baixo e um vestido. Olhou-se no espelho e achou-se bonita. Para uma ex-barata. Maquiou-se. Todas as baratas são iguais, mas as mulheres precisam realçar sua personalidade. Adotou um nome: Vandirene. Mais tarde descobriu que só um nome não bastava. A que classe pertencia?... Tinha educação?.... Referências?... Conseguiu a muito custo um emprego como faxineira. Sua experiência de barata lhe dava acesso a sujeiras mal suspeitadas. Era uma boa faxineira.

Difícil era ser gente... Precisava comprar comida e o dinheiro não chegava. As baratas se acasalam num roçar de antenas, mas os seres humanos não. Conhecem-se, namoram, brigam, fazem as pazes, resolvem se casar, hesitam. Será que o dinheiro vai dar ? Conseguir casa, móveis, eletrodomésticos, roupa de cama, mesa e banho. Vandirene casou-se, teve filhos. Lutou muito, coitada. Filas no Instituto Nacional de Previdência Social. Pouco leite. O marido desempregado... Finalmente acertou na loteria. Quase quatro milhões ! Entre as baratas ter ou não ter quatro milhões não faz diferença. Mas Vandirene mudou. Empregou o dinheiro. Mudou de bairro. Comprou casa. Passou a vestir bem, a comer bem, a cuidar onde põe o pronome. Subiu de classe. Contratou babás e entrou na Pontifícia Universidade Católica.

Vandirene acordou um dia e viu que tinha se transformado em barata. Seu penúltimo pensamento humano foi : "Meu Deus!... A casa foi dedetizada há dois dias!...". Seu último pensamento humano foi para seu dinheiro rendendo na financeira e que o safado do marido, seu herdeiro legal, o usaria. Depois desceu pelo pé da cama e correu para trás de um móvel. Não pensava mais em nada. Era puro instinto. Morreu cinco minutos depois , mas foram os cinco minutos mais felizes de sua vida.

Kafka não significa nada para as baratas...


Luis Fernando Veríssimo

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O estranho procedimento de dona Dolores

Começou na mesa do almoço. A família estava comendo — pai, mãe, filho e filha — e de repente
a mãe olhou para o lado, sorriu e disse:
— Para a minha família, só serve o melhor. Por isso eu sirvo arroz Rizobon. Rende mais e é mais
gostoso.
O pai virou-se rapidamente na cadeira para ver com quem a mulher estava falando. Não havia
ninguém.
— O que é isso, Dolores?
— Tá doida, mãe?
Mas dona Dolores parecia não ouvir. Continuava sorrindo. Dali a pouco levantou-se da mesa e
dirigiu-se para a cozinha. Pai e filhos se entreolharam.
— Acho que a mamãe pirou de vez.
— Brincadeira dela...
A mãe voltou da cozinha carregando uma bandeja com cinco taças de gelatina.
— Adivinhem o que tem de sobremesa?
Ninguém respondeu. Estavam constrangidos por aquele tom jovial de dona Dolores, que nunca fora
assim.
— Acertaram! — exclamou dona Dolores, colocando a bandeja sobre a mesa. — Gelatina Quero
Mais, uma festa em sua boca. Agora com os novos sabores framboesa e manga.
O pai e os filhos começaram a comer a gelatina, um pouco assustados. Sentada à mesa, dona Dolores
olhou de novo para o lado e disse:
— Bote esta alegria na sua mesa todos os dias. Gelatina Quero Mais. Dá gosto comer!
Mais tarde o marido de dona Dolores entrou na cozinha e a encontrou segurando uma lata de óleo
à altura do rosto e falando para uma parede.
— A saúde da minha família em primeiro lugar. Por isto, aqui em casa só uso o puro óleo Paladar.
— Dolores...
Sem olhar para o marido, dona Dolores o indicou com a cabeça.
— Eles vão gostar.
O marido achou melhor não dizer nada. Talvez fosse caso de chamar
um médico. Abriu a geladeira, atrás de uma cerveja. Sentiu que
dona Dolores se colocava atrás dele. Ela continuava falando para
a parede.
— Todos encontram tudo o que querem na nossa
Gelatec Espacial, agora com prateleiras superdimensionadas,
gavetas em Vidro-Glass e muito, mas muito mais
espaço. Nova Gelatec Espacial, a cabe-tudo.
— Pare com isso, Dolores.
Mas dona Dolores não ouvia.
Pai e filhos fizeram uma reunião secreta, aproveitando
que dona Dolores estava na frente da casa,
mostrando para uma platéia invisível as vantagens
de uma nova tinta de paredes.
— Ela está nervosa, é isso.
— Claro. É uma fase. Passa logo.
— É melhor nem chamar a atenção dela.
— Isso. É nervos.
Mas dona Dolores não parecia nervosa. Ao contrário,
andava muito calma. Não parava de sorrir para o seu público imaginário. E não podia passar por
um membro da família sem virar-se para o lado e fazer um comentário afetuoso:
— Todos andam muito mais alegres desde que eu comecei a usar Limpol nos ralos.
Ou:
— Meu marido também passou a usar desodorante Silvester. E agora todos aqui em casa respiram
aliviados.
Apesar do seu ar ausente, dona Dolores não deixava de conversar com o marido e com os filhos.
— Vocês sabiam que o laxante Vida Mansa agora tem dois ingredientes recém-desenvolvidos pela
ciência que o tornam duas vezes mais eficiente?
— O quê?
— Sim, os fabricantes de Vida Mansa não descansam para que você possa descansar.
— Dolores...
Mas dona Dolores estava outra vez virada para o lado, e sorrindo:
— Como esposa e mãe, eu sei que minha obrigação é manter a regularidade da família. Vida Mansa,
uma mãozinha da ciência à Natureza. Experimente!
Naquela noite o filho levou um susto. Estava escovando os dentes quando a mãe entrou de surpresa
no banheiro, pegou a sua pasta de dentes e começou a falar para o espelho.
— Ele tinha horror de escovar os dentes até que eu segui o conselho do dentista, que disse a palavra
mágica: Zaz. Agora escovar os dentes é um prazer, não é, Jorginho?
— Mãe, eu...
— Diga você também a palavra mágica. Zaz! O único com HXO.
O marido de dona Dolores acompanhava, apreensivo, da cama, o comportamento da mulher. Ela
estava sentada na frente do toucador e falando para uma câmara que só ela via, enquanto passava
creme no rosto.
— Marcel de Paris não é apenas um creme hidratante. Ele devolve à sua pele o frescor que o tempo
levou, e que parecia perdido para sempre. Recupere o tempo perdido com Marcel de Paris.
Dona Dolores caminhou, languidamente, para a câmara, deixando cair seu robe de chambre no
caminho. Enfiou-se entre os lençóis e beijou o marido na boca. Depois, apoiando-se num cotovelo,
dirigiu-se outra vez para a câmara.
— Ele não sabe, mas estes lençóis são da nova linha Passional da Santex. Bons lençóis para maus pensamentos. Passional da Santex. Agora, tudo pode acontecer...



  Luis Fernando Veríssimo

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O ovo

"Carlos acordou e fritou um ovo."

Anônimo 

"N'aquele outomno de 1875, Carlos abriu as pálpebras esguedelhadas --tinha acordado macilento. Trazia-lhe tranquillidade contar as 18 velas do lustre de ouro, presenteado pelo tio Affonso havia 32 anos. Sommente para dar-me esse lustre serviu o tio Affonso", pensou. Levantou-se da cama com uma fadiga langorosa, arrastando consigo os lençóis de seda indiana e esticou-se num fato de xadresinho inglês. Cobrindo-se com um cachenez de seda clara e abriu um tellegramma, indolente e poseur, em frente ao espelho de Veneza - resvalava, atravéz das árvores, uma luz enverdinhada. Ordenou à criada:
-- Frite-me ovos." 

Eça de Queiroz 


"Carlos acordou com uma súbita vontade de fritar um ovo, hei de fritar um ovo, pensou, agora mesmo, posto que se não fritá-lo, não poderei comê-lo frito, e terei de me contentar com ele cru, o que não seria do meu agrado. Tendo pensado nisso, fritou o ovo, e não está ruim, pensou, o ovo, frito." 

José Saramago 


"Acordei libertado da angústia de não estar acordado. Não estar acordado é enorme: viver é isso. Fritei um ovo." 

Clarice Lispector 


"Sonada: Carlos abriu o olho. Bisbilhava-se. A galinha desovou um ovo, disse Migué.
-- Larga de afoiteza, gritou tio Janjório. É muita ambicionice comer a galinha que ainda não galinhou.
Carlos nem orelhou. Quando o tio viu, o ovo já não era." 

Guimarães Rosa 


"Acordei ao lado de Vânia, que ainda dormia. Seus seios eram rosados e sua pentelheira era vasta e negra. Levantei e acendi um cigarro naquele fogão de bacana. Na cozinha, Branca me esperava, nua, com uma Magnum na mão, tapando-lhe a boceta. Eu disse alguma coisa que ela não gostou. Apontou a arma para os meus testículos.
-- Frita, Carlos. Seus ovos vão ser a porra do meu café da manhã.
Alguém bateu na porta. Era Frida, nua. Fodemos." 

Rubem Fonseca 


"Carlos acordou com a perna meia dormente. Para ficar com menas dor, recorreu a uma simpatia. Foi até a cozinha e fez um ovo estralado." 

Paulo Coelho 

gregorio duvivier

terça-feira, 27 de agosto de 2013

A primeira provocação...


A primeira provocação ele agüentou calado. Na
verdade, gritou e esperneou. Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão.
A segunda provocação foi a alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. Uma porcaria. Não reclamou porque não era disso.
Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento. Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz.
Foram lhe provocando por toda a vida.
Não pode ir a escola porque tinha que ajudar na roça. Tudo bem, gostava da roça. Mas aí lhe tiraram a roça.
Na cidade, para aonde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era lado. Resistiu a todas. Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar. Ir para um barraco pior. Ficou firme.
Queria um emprego, só conseguiu um subemprego. Queria casar, conseguiu uma submulher. Tiveram subfilhos. Subnutridos. Para conseguir ajuda, só entrando em fila. E a ajuda não ajudava.
Estavam lhe provocando.
Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar pra roça.
Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era. Parece que a idéia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa.
Terra era o que não faltava.
Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera. Amanhã. No próximo ano. No próximo governo. Concluiu que era provocação. Mais uma.
Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Para valer. Garantida. Se animou. Se mobilizou. Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir. Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação.
Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim. Talvez amanhã. Talvez no próximo ano... Então protestou.
Na décima milésima provocação, reagiu. E ouviu espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele:
- Violência, não!

                                       Luis Fernando Veríssimo

Sobre o futuro

Todo espírito preocupado com o futuro é infeliz.
O mais corriqueiro dos erros humanos é o futuro. Ele falseia a nossa imaginação, ainda que ignoremos totalmente onde nos leva.
Quando pensamos no futuro, nunca estamos em nós. Estamos sempre além.
O medo, o desejo, a esperança jogam-nos sempre para o futuro, sonegando-nos o sentimento e o exame do que é, para distrair-nos com o que será, embora o tempo passe e já não sejamos mais.
                                                                                                                   Montaigne

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Da arte de ser patife

Nós, brasileiros, temos grande vocação para ser patifes, e quase não é necessário ensinar a ninguém, aqui, a arte de ser patife. Em todo caso, como ainda há alguns que não são patifes, vou ensinar-lhes a arte.
Patifaria nada tem a ver com as patas, embora também se possa praticá-la com a dita cuja. Comumente, porém, pratica-se a patifaria com as mãos, ou com a boca. E quando disse patas, não me referi aos patos e às patas, aves anseriformes, anatídeas, que nadam nas lagoas e botam ovos. De qualquer maneira, quem é vítima de uma patifaria é um pato.
O nosso PIB, em patifaria, é elevadíssimo, e cresce cada vez mais a cada governo, e há quem seja especialista nela, como os deputados e senadores.
A patifaria, comumente se faz através do engodo, da promessa não cumprida, do engano, da dívida contraída e não paga. Praticam-na os comerciantes, os publicitários, os empresários, os fabricantes, et caterva. Também pode ser o estelionato, ou o peculato, e coisas de semelhante gênero. É bem de se ver ainda que a patifaria não é violenta. Ela é exercida suavemente, através das palavras, convencendo-se a vítima de que está fazendo um bom negócio. Quando a vítima é também um patife que pretende tirar vantagem de outro patife que lhe propõe uma transação, há no caso o que se denomina fraude bilateral.
O patife não é um medroso, é antes um audaz e, como diziam os latinos, “audax fortuna juvat”.
As mil formas de patifarias são muito diversificadas, e entre elas há o conto do vigário. Não sei, porém, se há o conto do bispo. Isto é, há sim, o conto dos bispinhos de algumas seitas religiosas. Estes, praticam a patifaria através da exibição de exorcismos e têm sempre a Bíblia na mão.
Patifaria ainda faz o homem que trai a sua mulher, e vice-versa.
A patifaria jamais espatifa, porque, como já disse, é praticada suavemente, através da persuasão do bobo que vai sofrer-lhe as conseqüências.
Os cartórios estão cheios de patifarias registradas. Os jornais estampam as patifarias e também as cometem. Que dizer então dos canais de televisão? Até através do telefone se pode praticar patifarias.
O patife bem sucedido nunca vai para a Cadeia.
Na língua portuguesa há um livro velhusco, em puro vernáculo, com o título “A Arte de Furtar”. Nele se ensina não só a arte de furtar, mas também a arte da patifaria.
Como somos o país da patolândia, aqui a patifaria prospera a olhos vistos.
Também é comum a patifaria no jogo de cartas.
Os banqueiros são patifes bem remunerados.
Igualmente, nas Bolsas, com o sobe e desce das ações, a patifaria tem o seu lugar.
E se você praticar estas recomendações, será, sem dúvida, um patife bem sucedido.
Afinal de contas, a vida é também uma patifaria. Promete o que não nos dá, e nos dá o que não queremos.

                                                                Annibal Augusto Gama

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

O artista inconfessável(Epígrafe)










Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.



                                     João Cabral de Melo Neto